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5 de setembro, DIA INTERNACIONAL DA MULHER INDÍGENA

Em homenagem ao dia da mulher indígena, o texto de Eliane Potiguara “O ATO DE CRIAÇÃO: o começo da cura!”

 

O ato de criação é um ato de amor. Amor a si mesmo, amor ao próximo, amor à natureza. Seja criar um texto, uma música, uma pintura ou qualquer outra arte. Mas para se chegar até aí, muitos caminhos foram bloqueados, muitas águas envenenadas tivemos que tomar; muitos fantasmas tivemos que enfrentar. Permanecemos como um rio que morre, que não corre e não ecoa ao encontrar-se com as pedras. Nos tornamos uma fome desesperada pelo novo, se enfraquecendo a nossa fecundidade. Enfim um caminho árido e infértil. Estivemos enclausurados dentro de nós mesmos. Mas não aguentamos mais e damos um basta! É hora de criar pacientemente o novo! Aí soltamos as amarras que sufocam a nossa alma, o nosso "ânima", a nossa essência para que os pássaros possam cantar de novo dentro de nosso espírito. Parece tudo muito simples. Mas não é. Reencontrar-nos com nosso ser selvagem, com nossa intuição, com nosso ser sutil, com nossos ancestrais, com nossa força interior é um desafio diário, principalmente quando a força externa impõe condicionantes sociais, psicológicos, político-econômicos maléficos, que lançam as sementes da enfermidade da alma e que lá na frente se transformam em enfermidades da mente e do corpo. Nosso corpo pode estar doente, porque nossa alma o está. E temos que buscar a cura do espírito, a cura do "ânima". Somente nós mesmos podemos fazer isso, assim como somente nós mesmos, podemos sentir o ato do nascimento, quando nascemos, e ato da morte, quando morremos. São atos só nossos. Ninguém pode senti-los. Por isso quando morre um parente indígena, seus pertences são todos depositados em sua tumba. Somos seres coletivos, mas antes temos nossa individualidade, inclusive nossa solidão, como no ato do pensar e da escrita. Nos tempos atuais, é hora do desafio. Extirpar o monstro que nos mata no dia-a-dia é dura tarefa. Primeiro se sofre calado. Há os que se acostumam com a dor, a opressão e a repressão social e política, desembocando no desequilíbrio ou na loucura. Mas há os que clamam, depois de invernos. Há os que berram ! Neste momento, abre-se uma porta. A mudança dentro de nós só se dá, quando identificamos o inimigo interno (às vezes o inimigo somos nós mesmos ) e o rejeitamos, seja da maneira que for. Então podemos parecer loucos, mas no ato de "vomitar" é que está a transformação do espírito para o novo homem, para a nova mulher! Sofremos e não estamos aqui para sofrer. O Criador oferece grandes dádivas de vida para seu filho, senão ele não criaria tantas belezas, tantos mares, planícies, céus, montanhas, pássaros, seres humanos, ad infinitum… E quando o homem selvagem e a mulher selvagem gritam dentro de nós querendo voltar para a casa primitiva é chegada a hora da mudança. Atente para significado de selvagem e primitiva que nada tem a haver com historiografia, mas sim com interior humano, âmago, essência espiritual, ser sutil, a casa da alma, ancestralidade. Quando perdemos os tesouros de Deus e ficamos desnudos e damos um basta, é chegada a hora da criação. Ficamos quietos, sentimos solidão, solidão que parece que mata, que maltrata, mas necessária. E entramos em outras esferas superiores e sagradas. Esse selvagem sagrado que foi resgatado e que já estava dentro de nós e não sabíamos, está também nos "recriando" e nos enchendo de amor e nos fortalecendo. Nasce a criatividade. E renascemos. E florescemos para o futuro. O processo de criação emana de algo que surge e que vai crescendo em nosso âmago, é como um novo amor em nossos corações. Vai crescendo e não temos rédeas para segurá-lo. É um vulcão. É a (r) evolução do espírito. É o êxtase. É o insight para o novo ser humano"(a)". E esse único ato de criação é o suficiente para alimentar um oceano, assim como o leite doce e materno de uma jovem mãe é o suficiente para trazer de volta um ser nascido prematuramente. No ato da criação se dá a purificação do espírito, do "ânima", da alma e consequentemente a purificação do corpo e a extirpação de velhos tumores, velhos fantasmas… O termo purificação não está ligado a facções religiosas ou conotações cristãs. O termo refere-se ao ser primeiro, ao ser sutil, à compreensão simples de que a vida precisa ser vivida com amor, dignidade e que o amor, a compreensão, o diálogo e cooperação são os alicerces para o novo homem , a nova mulher. O processo anterior à criação – o sofrimento, o coração endurecido, o " ânima" esfacelado – é agora neutralizado e transformado em pó, diante da grandiosidade da BUSCA pela transformação e purificação do espírito. Tudo isso é simplesmente política, a política da existência. CRIEMOS, então… porque a criação é um ato divino que tende a mudar consciências, formar opiniões, suavizar o individualismo que ronda às mentes. E a mulher indígena que passou por toda a sorte de massacres ao longo da história, condicionadas ao medo e ao racismo, sobrevivem porque são criativas, xamãs, visionárias, curandeiras, guerreiras e guardiãs do planeta. Seu inconsciente coletivo ancestral refloresce a cada ato de criação delas, porque elas são capazes de beijar as cicatrizes do mundo, num ato de caridade. E a palavra delas é sagrada como a terra que dá o alimento ao próximo, alimento da CURA em todos os sentidos. . IDENTIDADE PERDIDA Amanhã é o último dia que venho aqui Vou prestar as contas Vou tirar essas roupas sujas E vou lavar minha alma Acho que vou ser feliz Ou então vou viver na inércia da própria existência.

Setembro 5, 2016 - Posted by | jornalismo, literatura | , ,

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