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20 anos sem as ideias do professor Darcy

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Para quem conviveu com o antropólogo, ele, se estivesse vivo, estaria decepcionado com o tratamento dado ao seu principal projeto de país: garantir a escola pública de qualidade

» Natália Lambert

Se hoje estivesse vivo, provavelmente, Darcy Ribeiro estaria falando uns bons palavrões. Na opinião de estudiosos, amigos e parentes, o político e antropólogo ficaria decepcionado em ver que um de seus principais projetos praticamente não caminhou após sua morte, e, na opinião de alguns, até regrediu. O educador defendia que o primeiro passo para o desenvolvimento de uma sociedade é garantir uma escola pública de qualidade para que todos possam ter oportunidades iguais de desenvolver as próprias qualidades. Amanhã faz 20 anos que Darcy Ribeiro morreu e, para aqueles que conviveram com o professor, o legado precisa ser relembrado.

"É um projeto que não aconteceu e não acontece por falta de vontade política. Ele sempre falava que era impressionante como o Brasil conseguia tirar petróleo a sete mil metros de profundidade no mar e não conseguia copiar um simples modelo de educação feito em diversos países. A verdade é que não querem. É melhor para alguns deixar o Brasil tal qual como está", comenta Paulo Ribeiro, sobrinho de Darcy. "Com certeza, ele estaria em um sofrimento terrível. Uma pilha de nervos. Sem dormir diante deste país que tanto retrocedeu nesses vinte anos", acrescenta.

Presidente da Fundação Darcy Ribeiro (Fundar), Paulo conta que o tio fez parte de uma geração pós-guerra que se preocupou em olhar para o Brasil e enxergar as potencialidades da sociedade. Darcy via um país imenso, cheio de diversidades que, somadas, tinham potencial para ser exemplo de tolerância para o mundo. "Ele via que da soma ia surgir um povo novo. O Brasil ia ser a experiência de país que deu certo respeitando os direitos e as diferenças. E a chave para tudo isso era a educação. Mas a semente que ele plantou ninguém regou. O individualismo prevaleceu e a utopia morreu", lamenta Paulo.

Especialistas avaliam que iniciativas como a Medida Provisória 746/16, que reforma o Ensino Médio e será sancionada hoje pelo presidente Michel Temer, e projetos que pretendem uma "Escola sem Partido" — movimento que defende uma educação sem "doutrinação ideológica" — contrariam o que Darcy Ribeiro ensinava e, certamente, ele estaria na linha de frente lutando, argumentando e convencendo, já que tinha reconhecida habilidade de negociação. Para o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, o professor seria favorável à reforma do ensino médio, mas não da forma como está. "Seria a favor da preocupação, até porque lançou a pauta do ensino integral no país, mas o integral não pode ser mais do mesmo. Ele defendia uma educação em que os alunos tivessem acesso à arte e à cultura geral", comenta. "A principal preocupação sempre foi garantir uma educação capaz de preparar plenamente crianças e adolescentes para a vida. E esse é um legado que não vai se acabar."

O professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) Isaac Roitman, que conviveu com Darcy nos últimos anos de vida, acredita que o educador também não aprovaria as mudanças no Ensino Médio porque não vai adiantar reformar só um pedaço. "Seria favorável a reconstrução do sistema educacional, até porque quem vai cursar o ensino médio são os egressos do fundamental, que só estudam para fazer prova e muitos são semianalfabetos. Dobrar o tempo da criança na escola como ela é hoje é fazer terrorismo." Roitman destaca que Darcy e Anísio Teixeira são os pilares da UnB e conta que a dupla lutou junto ao governo federal à época para que a instituição fosse autônoma, negociando terrenos em quadras da Asa Norte para que se construísse um patrimônio. "A educação era o vício dele", relembra.

Já a secretária-executiva do Ministério da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, tem certeza de que Darcy aprovaria a MP 746, porque ela trata de temas que ele tocou quando aprovou no Senado a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). "Ele defendia uma reforma, uma flexibilização e diversificação do ensino e é isso que a MP traz. A possibilidade de aprofundamento dos temas. Darcy era um homem com ideias muito avançadas para o seu tempo", comenta. Para a socióloga e professora, que trabalhou junto a Darcy na elaboração da LDB, seria uma decepção para ele ver que o Brasil ainda tem dificuldades em alfabetizar crianças. Segundo a Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), em 2014, somente 11% dos alunos do terceiro ano do ensino fundamental tinham nível considerado ideal de alfabetização. "Seria muito frustrante pra ele ver que ainda não conseguimos vencer essa batalha." Em relação à escola sem partido, a opinião é unânime: Darcy Ribeiro estaria furioso.

Ensinamentos

E não só políticos e educadores sentem a ausência do professor que tinha orgulho em dizer que era brasileiro. Defensor dos povos indígenas, o antropólogo é referência nacional. "Darcy Ribeiro faz muita falta na cena brasileira atual, na qual os direitos dos povos indígenas, sobretudo os territoriais, estão ameaçados de retrocesso, pelo desmonte da Funai e por iniciativas do Legislativo", afirma o antropólogo do Instituto Socioambiental (ISA) Beto Ricardo. O especialista lamenta que as novas gerações estejam se distanciando do homem que amava o povo brasileiro e ensinava o povo a se amar.

Uma vida para ser contada

» Nascimento e infância

A 400km de Belo Horizonte, em Montes Claros (MG), em 26 de outubro de 1922, nasceu Darcy Ribeiro. O pai, Reginaldo Ribeiro dos Santos era farmacêutico; a mãe, Josefina Augusta da Silveira, professora. Darcy e o único irmão, mais novo, Mário Ribeiro, foram criados pela mãe, já que o pai morreu quando ele tinha 3 anos. Por volta dos 13, passou a conviver com a família do pai, especialmente, o tio Plínio Ribeiro, que foi deputado federal. Na casa de Plínio, tinha uma grande biblioteca e nela Darcy começou a ler.

"Tenho duas vantagens que os meninos não têm. Meu pai morreu eu tinha 3 anos. Então, não tive nenhum pai chato me domesticando. E eu não tive nenhum filho para domesticar. Então, eu não fui domesticado e nunca domestiquei ninguém", disse durante uma entrevista"

» Juventude

Aos 17 anos mudou-se para Belo Horizonte para estudar medicina, curso em que permaneceu entre 1939 e 1943. Simultaneamente, assistia a aulas no departamento de ciências sociais e descobriu que estava no curso errado. Em 1944, mudou-se para São Paulo e matriculou-se na Escola de Sociologia e Política, onde formou-se em 1946, com especialização em Etnologia. Ainda em Belo Horizonte, começou a militância no Partido Comunista Brasileiro, movimento que abandonou anos depois. Em São Paulo, conheceu a antropóloga romena Berta Gleiser, com quem ficou casado entre 1948 e 1975.

"Sempre fui, em toda a minha vida adulta, um cidadão ciente de mim mesmo como um ser dotado de direitos e investido de deveres. Sobretudo, o dever de intervir neste mundo para melhorá-lo"

» Índios

Em 1947, entrou no Serviço de Proteção aos Índios (SPI), onde conheceu Cândido Mariano da Silva Rondon (Marechal Rondon), então presidente do Conselho Nacional de Proteção ao Índio. Ali, conviveu com comunidades indígenas do Mato Grosso e da floresta amazônica. Em 1953, inaugurou o Museu do Índio e organizou, em 1955, o primeiro curso de pós-graduação em antropologia cultural realizado no Brasil. Em parceira com os irmãos Orlando e Claudio Villas-Boas, criou o Parque Indígena do Xingu (MT).

"Dediquei a vida aos índios, à minha paixão por eles e também à escola pública. Minha vida é feita de projetos impessoais para passar o Brasil a limpo, porque o Brasil é máquina de gastar gente. Gastou seis milhões de índios e o equivalente de negros. Para eles? Não! Para adoçar a boca do europeu com açúcar, para enriquecer uns poucos.

O povo foi gasto como carvão neste país bruto"

» Doença

Em maio de 1975, é internado em uma clínica de Paris e recebe o diagnóstico de um tumor no pulmão. Teve autorização de voltar ao Brasil e retirou um dos pulmões. Em 1994, recebe novamente um diagnóstico da doença, dessa vez, câncer de próstata. Em 1995, depois de ficar meses internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, fugiu da Unidade de Terapia Intensiva para o sítio que tinha em Maricá, onde terminou de escrever uma de suas principais obras O povo brasileiro. Ainda viveu por mais dois anos.

"Eu não tenho medo da morte. A morte é apagar-se, como apagar a luz. Presente, passado e futuro? Tolice. Não existem.

A vida vai se construindo e destruindo. O que vai ficando para trás com o passado é a morte. O que está vivo vai adiante"

Fevereiro 16, 2017 Posted by | jornalismo | , | Deixe um comentário