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NOTA PARA A IMPRENSA DE RITA ALVES SOBRE O CARNAVAL

“Atendendo o pedido da amiga mangueirense, escritora e poeta Rita Alves divulgamos a nota abaixo” – Rosely Pellegrino

Ao longo da história da humanidade, aqueles que tiveram a coragem de ousar foram julgados sem piedade.

Em tempos passados, julgados pela Inquisição, atirados a fogueira, sentenciados por fazerem descobertas científicas ou apenas por questionarem a ordem, levantarem dúvidas sobre o formato da Terra, como Galileu Galilei, por se perguntarem sobre a existência de outros planetas…

Outros ainda foram desmoralizados e chamados de loucos, reduzidos a estigmas e estereótipos para que perdessem a credibilidade, como Beethoven, revolucionário em sua época, ou ainda o nosso brasileiríssimo Heitor Villa Lobos, que ousou usar uma folha de zinco numa sinfonia.

E já que falamos em Brasil, que tal os modernistas, que romperam com a estética padrão, propondo a brasilidade, comermos e digerirmos as várias culturas mas fazer desta “Antropofagia” o que é a nossa mais alta cultura, dando valor às expressões populares, retirando as rimas dos versos, a jaula da forma soneto, as harmonias aprisionadas em modelos europeus… a pintura romântica ou retratista que reverenciava mitos, heróis construídos, a alta burguesia e a aristocracia.

Mas foram justamente essas ousadias que moveram a ciência para frente, as conquistas, os avanços.

Não posso, portanto, aceitar que na expressão mais popular do planeta, o CARNAVAL, ainda haja esse ranço ultrapassado do conservadorismo, de homens munidos do poder de julgar – como inquisidores medievais – sentenciando à fogueira (das vaidades) a alta expressão, a coragem em romper padrões, o avanço no sentido de sedimentar a mais nobre expressão do que somos.

Cultura só se sedimenta quando temos CORAGEM de absorver tudo o que foi feito e transformamos não em algo NOVO ou outro, mas num processo de crescimento, de avanço no sentido de confirmar a tradição.

Foi isso o que aconteceu nesta terça-feira no Rio de Janeiro, na Sapucaí, durante a apresentação da escola de samba mais tradicional deste país. Cuja inquestionável importância deveria ser no mínimo respeitada e vista com olhos antropológicos e críticos de modo a constituir mais fortemente o nosso imaginário essencial de brasileiros.

Alguém se lembra de ter visto algum ano a Estação Primeira de Mangueira fazer UM carnaval que seja que não trouxesse à baila a nossa própria cultura? Enquanto outras “agremiações” se valem de enredos e temas mercadológicos, enquanto essas mesmas escolas se transferem de suas raízes do morro para espaços turísticos, quadras modernas e distantes de sua origem, a ESCOLA de samba Mangueira resiste. Resiste em seu espaço do morro, celebra nossa história (Enredo de 2009: “A Mangueira traz os Brasis do Brasil Mostrando a Formação do Povo Brasileiro – Darcy Ribeiro” enredo de 2010; “Mangueira é Música DO BRASIL”; enredo de 2011 “O Filho Fiel, sempre Mangueira – Nelson Cavaquinho”), sem sair do espaço geográfico do morro, junto a sua comunidade, berço dos mais nobres compositores de nossa história, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Padeirinho, entre outros tantos nomes relevantes da poesia musical.

Então, tal qual Monteiro Lobato, ao recriminar a arte de Anita Malfatti, renega a sua criação, faz uma crítica destrutiva a pintora que, traumatizada deixa de pintar por um longo período, jurados formados – mal formados e mal informados – em cursos relâmpagos, sem a responsabilidade histórico-cultural, sem conhecer o que significa estética do rompimento como reforço de uma estrutura cultural (leiam Antonio Candido), sentenciam com suas canetas medievais a escola mais tradicionalmente ousada deste país a um sétimo lugar, indecorosamente.

A apresentação do Mestre Sala e Porta-bandeira foi primorosa nos quesitos que efetivamente deveriam ser julgados.

O carnavalesco ousou retirar as pompas coloniais das roupas do belo casal, tirou a camisa de Raphael Rodrigues, negro transformado antropofagicamente em índio, nossa essência cultural, colocou frente a frente na figura de Marcela Alves o Bloco Carnavalesco Bafo da Onça – rival histórico do Cacique de Ramos – numa dança harmônica simbólica, metáfora grandiosa do que significa ser brasileiro: conviver com a diversidade, e o júri simplesmente não ver beleza nas vestimentas por puro conservadorismo e falta de visão artística e estética?!

O que é o carnaval, senão a expressão da nossa mais profunda expressão cultural? Ou será que teremos que viver o sensacionalismo também em nossa expressão mais bela? Shows espetaculares, malabarismos e ousadias sem fundamentação antropológica?

A apresentação deste ano da escola foi um marco em nossa história cultural talvez do nível de uma Semana de Arte de 1922, tal qual os modernistas, que foram ousados em mostrar uma nova ordem, dando a cara ao tapa.

Mangueira teve CORAGEM de mostrar-se BRASILEIRA, reverenciar o mais tradicional bloco de carnaval, Cacique de Ramos, de modo a exaltar a comunidade do samba.

Mangueira – com sua histórica parada de bateria de mais de dois minutos – chamou a atenção para o fato de que não existe carnaval sem a comunidade cantando em uníssono o seu hino.

Mangueira chamou a atenção para a importância da BATERIA, justamente pela ausência dela – e sua volta triunfal, pois a percussão é o nosso instrumento ancestral brasileiro, onde trazemos a presença dos tambores indígenas e africanos… a bateria mais perfeita que já existiu no carnaval.

Peço atenção da crítica, dos historiadores, da imprensa como um todo, para esta séria questão.

Enquanto os tropicalistas diziam “Quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira”, nós vamos tornar a nossa expressão cultural ultra brasileira num espetáculo da Broadway?!

Certo estava Oswald de Andrade ao escrever que começamos errado a nossa história:

Fevereiro 26, 2012 Posted by | arte, Carnaval, cultura, jornalismo, literatura | | Deixe um comentário